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Quando o caráter deixa de ser requisito

Artigo de opinião do comunicador e cidadão que acredita que a política deve ser instrumento de transformação social, Rodrigo de Souza.

Por Rodrigo de Souza

Não faz muito tempo, uma pergunta começou a me incomodar.
Por que está cada vez mais difícil encontrar pessoas de caráter na política?
Não escrevo este artigo pensando em um partido, em um mandato ou em uma pessoa específica. Escrevo olhando para um cenário que se repete há anos e que, infelizmente, parece ter se tornado comum.
Ligamos a televisão e vemos denúncias de corrupção. Abrimos os portais de notícias e encontramos investigações, prisões, fraudes em licitações, desvios de recursos públicos, compra de apoio político, promessas esquecidas logo após as eleições e disputas que parecem colocar interesses pessoais acima das necessidades da população.
Enquanto isso, hospitais enfrentam dificuldades, escolas precisam de investimentos, entidades sociais lutam diariamente para manter suas portas abertas e milhares de famílias esperam por soluções que nunca chegam.
Diante desse cenário, nasce uma dúvida inevitável: será que o problema é a política ou a falta de pessoas com caráter dentro dela?
Durante muito tempo, criou-se a ideia de que “todo político é igual”. Particularmente, não concordo com essa afirmação. Conheço homens e mulheres que entraram na vida pública com espírito de serviço, que trabalham em silêncio, prestam contas de seus atos e entendem que ocupar um cargo público significa assumir uma responsabilidade, não conquistar um privilégio.
O problema é que essas pessoas parecem cada vez mais raras.
Hoje, muitas vezes, vale mais uma boa estratégia de marketing do que uma boa história de vida. Um vídeo viral recebe mais atenção do que anos de trabalho sério. O discurso emociona mais do que a prática. A aparência pesa mais do que a essência.
E é justamente aí que mora o perigo.
Caráter não aparece apenas em grandes decisões. Ele se revela nos pequenos atos. Está em cumprir uma promessa quando ninguém está cobrando. Em dizer a verdade mesmo quando ela não rende aplausos. Em usar o dinheiro público com o mesmo cuidado que se usa o próprio dinheiro. Em reconhecer um erro, prestar contas e colocar o interesse coletivo acima da conveniência política.
Talvez o maior problema não seja a falta de pessoas honestas.
Talvez seja que muitas delas desistiram da política.
Desistiram porque não aceitam negociar princípios. Porque não querem fazer parte de jogos de interesse. Porque sabem que, muitas vezes, quem age corretamente demora mais para conquistar espaço do que quem faz promessas impossíveis ou utiliza o poder em benefício próprio.
E quando os bons se afastam, o vazio não permanece vazio. Ele é ocupado.
A democracia depende de pessoas preparadas, mas, acima de tudo, depende de pessoas de caráter. Competência pode ser aprendida. Experiência pode ser adquirida. Caráter, porém, não se improvisa durante uma campanha eleitoral.
Não precisamos de políticos perfeitos. Eles não existem.
Precisamos de homens e mulheres que compreendam que mandato não é patrimônio pessoal, dinheiro público não é dinheiro privado, cargo não é privilégio e poder nunca deve estar acima da consciência.
No fim, talvez a pergunta não seja apenas por que está tão difícil encontrar pessoas de caráter na política.
Talvez a pergunta seja ainda mais profunda.
Será que as pessoas de caráter deixaram de entrar na política… ou nós deixamos de escolhê-las?
A resposta não está nas redes sociais, nem nos discursos.
Ela está diante do espelho, toda vez que cada cidadão decide em quem confiar o futuro de sua cidade, de seu Estado e do seu país.

  • Rodrigo de Souza é Comunicador e cidadão que acredita que a política deve ser instrumento de transformação social.

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