Por Rodrigo de Souza
Existe uma coisa curiosa na vida que só fui entender depois de me tornar pai.
As últimas vezes quase nunca avisam que serão as últimas.
Ninguém percebe quando dá o último banho em um filho pequeno. Ninguém guarda na memória a última história contada antes de dormir, o último desenho assistido sentado no chão da sala ou a última vez em que uma criança pede para atravessar a rua de mãos dadas. Esses momentos simplesmente acontecem e, quando nos damos conta, já ficaram para trás.
Outro dia peguei o Luka no colo como faço tantas vezes. Abaixei um pouco o corpo, passei os braços por baixo dele e o levantei. Mas havia algo diferente. Ele estava mais pesado. Não era apenas o peso de uma criança que cresce. Era o peso do tempo.
Enquanto caminhava com ele nos braços, uma pergunta surgiu de repente: será que um dia aquele também será um dos últimos colos da infância dele?
Na mesma hora pensei na Helena.
Ela tem apenas dez anos. Ainda me abraça, ainda gosta de dividir comigo as histórias da escola e continua encontrando no pai de coração um porto seguro quando precisa conversar. Mas percebi que faz tempo que ela deixou de pedir colo como fazia quando entrou na minha vida.
Não sei quando isso aconteceu.
Não houve despedida, nem um último pedido anunciado. Apenas um dia ela cresceu um pouco mais. E talvez seja exatamente assim que a infância se despeça de nós: em silêncio.
Depois pensei na Maitê. Ela ainda segura minha mão para atravessar a rua, corre para mostrar um desenho, faz perguntas que me arrancam sorrisos e ainda encontra no abraço do pai um lugar seguro. Sei que chegará o dia em que resolverá os próprios desafios e seguirá o seu caminho. É isso que todo pai deseja. Mesmo assim, existe uma pequena parte do nosso coração que gostaria de pedir ao tempo para caminhar um pouco mais devagar.
Então olhei novamente para o Luka. Ele ainda pede colo, ainda encosta a cabeça no meu ombro quando está cansado e ainda procura nossos braços quando precisa de segurança. Naquele instante compreendi que esses momentos, justamente por parecerem tão comuns, talvez sejam os mais preciosos da vida.
O Luka chegou até nós trazendo muitos aprendizados. O autismo nos apresentou desafios que jamais imaginávamos enfrentar, mas também nos ensinou a celebrar conquistas que, para muita gente, passam despercebidas. Com ele aprendi que cada criança tem o seu tempo e que o amor de um pai nunca pode ser medido pela velocidade das conquistas, mas pela disposição de caminhar ao lado do filho em cada etapa da jornada.
Hoje percebo que Deus foi me ensinando a ser pai de maneiras diferentes. Com a Helena, aprendi que pai é quem escolhe amar todos os dias. Com a Maitê, descobri que um filho muda completamente a forma como enxergamos o futuro. Com o Luka, aprendi que algumas das maiores vitórias acontecem em silêncio e que a paciência também é uma forma de amor.
Enquanto escrevo este texto, olho algumas fotografias espalhadas pela sala de casa. Em uma delas, a Helena ainda é pequena. Em outra, a Maitê sorri comendo batata frita ao meu lado. Na mais recente, o Luka está no meu colo, com a cabeça apoiada no meu ombro.
As fotografias conseguem congelar o tempo. A vida, não.
Daqui a alguns anos, talvez nenhum dos três peça colo. É assim que deve ser. Os filhos crescem, descobrem o mundo, conquistam independência e seguem seus próprios caminhos. Mas, enquanto esse dia não chega, quero aproveitar cada abraço, cada conversa, cada pedido para brincar e cada mãozinha estendida procurando a minha.
No fim das contas, o maior presente que um pai pode oferecer nunca foi um brinquedo, um celular ou qualquer outra coisa que o dinheiro possa comprar. É presença. É tempo. É amor demonstrado nas pequenas coisas do cotidiano.
Neste Dia dos Pais, quero fazer apenas um convite a todos os pais de Assis. Abrace seus filhos um pouco mais demorado. Sente no chão para brincar. Escute com atenção aquela história que eles insistem em contar pela décima vez. Desligue o celular por alguns minutos. E, quando eles pedirem colo, aceite. Mesmo que as costas reclamem.
Porque existe uma verdade que quase sempre aprendemos tarde demais: as últimas vezes nunca avisam que estão chegando.
Talvez, quando nossos filhos forem adultos, eles não se lembrem de todos os presentes que receberam. Mas certamente se lembrarão de quem estava ao lado deles quando ainda precisavam de um abraço, de uma mão estendida e de um colo.
No fim das contas, talvez essa seja a missão mais bonita que Deus confiou a um pai. Não impedir que os filhos cresçam, mas fazer com que, quando crescerem, levem para a vida inteira a certeza de que nunca lhes faltou amor.
Rodrigo de Souza: Pai da Helena, da Maitê e do Luka. Um homem que continua aprendendo a ser pai todos os dias.



