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Os minerais são raros, mas as terras são alheias

Artigo do Geólogo com Mestrado e Doutorado na UNESP e Pós-Doutorado na UNICAMP e também Advogado de Direito Minerário e Ambiental, José Reynaldo Bastos da Silva.

Nos bancos acadêmicos, a Geologia explica o que e quais são os elementos químicos que compõem as terras raras, citadas comumente na literatura mundial como “Rare Earth Elements”, identificados pela sigla REE; os elementos (químicos) das terras raras, numa tradução literal. Aprofundando, um grupo de 17 elementos metálicos dos quais 15 compõem o grupo dos lantanídeos (ocupam a sequência numérica de 57 a 71 da tabela periódica) mais escândio (ocupa o grupo 3) e ítrio que são metais de transição e geralmente se associam ao tório e urânio, o propulsor da poderosa energia nuclear. Para popularizar o termo, são as areias monazíticas de baixa radioatividade encontradas também nas praias capixabas, como em Guarapari, a chamada “Praia da Areia Preta” onde banhistas fazem uso de terapias saudáveis.

Grosso modo, todos os REEs têm aplicações nobres na indústria de ponta para os segmentos metal-elétricos. Exemplificando, o escândio é considerado um melhorador das propriedades do alumínio, formando ligas metálicas de alta resistência, maleabilidade e durabilidade; o ítrio é utilizado na produção de fósforo para fabricação de telas fosforescentes geradoras de imagem colorida, projetores à laser e supercondutores de energia elétrica ou eletromagnéticas.

A base técnica de geração dessa alta tecnologia está nas propriedades naturais desses elementos no campo da mineralogia, química e física (elétricas, magnéticas e óticas), singulares senão únicas, que os tornam essenciais para a eletrônica (smarphones e outros celulares e computadores), transição energética renovável (turbinas eólicas, placas solares, veículos elétricos) e sistemas de defesa militar por satélite ou radar.

Geralmente ocorrem dispersos no planeta. O que é raro é a aglomeração natural destes na forma de depósitos economicamente viáveis para extração, as chamadas jazidas de minerais de minério, uma anomalia geológica da crosta terrestre.

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de reservas de terras raras, contribuindo com 25% dessas reservas do mundo, com jazidas expressivas em Minas Gerais. Atualmente, os minerais brasileiros são exportados, principalmente para a China, onde são processados e utilizados na fabricação de ímãs permanentes para uso em tecnologia de ponta de inúmeras atividades econômicas. Aí reside um grande desafio para o Brasil: desenvolver processamento industrial de minérios para deixar de ser meramente um exportador de commodities e se converter definitivamente num país gerador de tecnologia de ponta para agregar valor como produto final e se tornar efetivamente um player global. Enquanto a China industrializa as terras raras, o Brasil lhe fornece como matéria prima para dominar próximo de 80% da produção mundial de materiais acabados a partir desses elementos raros, um quase monopólio chinês.

As terras raras foram o principal fator que forçou os Estados Unidos voltarem atrás pós- tarifaço de abril de 2025 reduzindo-o para a China no acordo que fecharam no meio do mês de julho de 2025 de 145% para 30%.

O eixo central dessa disputa é a Inteligência Artificial (IA), a tecnologia mais transformadora do mundo do presente século 21. Para gerá-la há que se construir complexas estruturas arquitetônicas que requerem investimentos milionários, os conhecidos data centers, centros operacionais de dados para geração de inteligência artificial. Nelas ocorrem instalações com alto consumo energético que fazem concentrar, num único espaço, servidores, equipamentos ópticos e sistemas de refrigeração, todos fabricados com metais oriundos de minerais altamente especializados, principalmente as terras raras. Um data center de hiperescala pode ter mais de 5.000 servidores e ocupar mais de 1.000 metros quadrados.

O Brasil possui jazidas de minérios de terras raras e outros minerais não menos importantes de níquel, cobre, cobalto, tântalo/nióbio, lítio, grafite/grafeno e tório/urânio. São estratégicos para o desenvolvimento sustentável. É um valioso trunfo de negociação em alto nível, inclusive com os Estados Unidos. Mas preservando a soberania nacional, encetando uma nova ordem mundial de entendimento de igual para igual com qualquer outro país importador, não abrindo mão de nossos valores nacionais e deixando claro que, para possuir nossas riquezas minerais, tal país terá que pagar o justo preço. Fazer entender que aqui temos minerais que são raros, mas as terras são alheias.

  • José Reynaldo Bastos da Silva é Geólogo com Mestrado e Doutorado na UNESP e Pós-Doutorado na UNICAMP e também Advogado de Direito Minerário e Ambiental.

(Essa matéria foi escrita em 27/07/2025 com exclusividade para o “Estadão”, em atenção da Ana Luíza Antunes).

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