O Diário do Vale - A Região no Mundo!
Pesquisar

Assis precisa de paz e respostas claras

Artigo de opinião do publicitário, mestre em Comunicação e cidadão assisense, Rodrigo de Souza.

Denúncias precisam ser investigadas, governos precisam responder e vereadores precisam fiscalizar. Mas, diante de uma crise política que parece não ter fim, existe uma pergunta que também precisa ser feita: em que momento Assis volta a discutir o seu futuro?

Por Rodrigo de Souza

Assis vive um momento político que merece nossa atenção, mas talvez também exija uma reflexão um pouco diferente daquela que tem dominado as redes sociais nos últimos dias. Não quero entrar no mérito de quem está certo ou errado na mais recente disputa envolvendo a Prefeitura e a Câmara Municipal. Existem instituições, documentos, procedimentos legais e, agora, até o Poder Judiciário envolvido nessa história. Se houve irregularidade, que seja investigada. Se alguém agiu de maneira ilegal, que responda. Se as acusações não se sustentarem, isso também precisa ficar claro. O que me preocupa é perceber que estamos entrando em uma sequência de crises políticas na qual uma termina e outra começa, enquanto Assis continua esperando respostas para problemas muito mais próximos da vida de quem mora aqui.
O episódio mais recente talvez seja o melhor exemplo desse ambiente. Uma denúncia contra a prefeita foi apresentada à Câmara, surgiram dúvidas sobre as circunstâncias em que o documento teria sido assinado, a própria denunciante apresentou versões que provocaram novos questionamentos, o Legislativo interrompeu o andamento da questão e o caso chegou à Justiça. A partir daí, cada lado passou a apresentar sua leitura dos acontecimentos. Para quem acompanha tudo de fora, sobra uma sensação bastante desconfortável: afinal, o que realmente aconteceu? E essa resposta não pode depender da preferência política de cada um. Precisa vir dos fatos.
É exatamente por isso que não vejo sentido em transformar essa discussão em mais uma torcida organizada. Se existe algo a ser investigado na administração, investigue-se. Se existe suspeita de irregularidade na elaboração ou assinatura de uma denúncia, investigue-se também. A régua precisa ser a mesma para todos. Democracia não funciona quando queremos investigação apenas contra aqueles de quem discordamos e silêncio quando os questionamentos atingem aqueles com quem simpatizamos. Quem acusa precisa apresentar elementos. Quem é acusado precisa responder. E quem tem competência para investigar precisa fazer isso com independência.
Mas existe outra questão que começa a me incomodar ainda mais: quanto tempo Assis está gastando administrando sua própria crise política? Não estou falando somente da Prefeitura. Estou falando do conjunto das instituições políticas da cidade. Quantas horas de trabalho, reuniões, sessões, entrevistas, notas, respostas e articulações estão sendo consumidas nesse ambiente? Quanto da capacidade de pensar o município está sendo direcionado para administrar conflitos? Essa conta dificilmente aparecerá em uma planilha, mas quem acompanha a cidade percebe que ela existe.
E basta olhar para os últimos acontecimentos para entender por que essa preocupação não é pequena. Recentemente discutimos os problemas da coleta de lixo, caminhões fora de operação, manutenção da frota, possibilidade de terceirização e mudanças na forma de coleta. Ao mesmo tempo, continuam sobre a mesa desafios na saúde, infraestrutura, desenvolvimento econômico, geração de empregos, educação, esporte, cultura e assistência social. Nenhum desses problemas desaparece porque a política entrou em crise. Pelo contrário. Eles continuam chegando todos os dias à porta do poder público.
Por isso, talvez seja necessário fazer uma pergunta incômoda: Assis está conseguindo governar seus problemas ou está apenas administrando suas crises?
Fiscalização não é problema. É solução quando feita com responsabilidade. Uma Câmara atuante é fundamental para qualquer município, assim como uma oposição independente é necessária para a democracia. Da mesma maneira, nenhum governo pode considerar todo questionamento uma perseguição política. Quem ocupa cargo público precisa saber que será cobrado, questionado e fiscalizado. Isso faz parte. Mas também precisamos reconhecer quando o ambiente político ultrapassa a divergência saudável e passa a funcionar permanentemente sob tensão.
E aqui existe uma responsabilidade que também é nossa, da população. Estamos realmente interessados em descobrir o que aconteceu ou apenas esperando aparecer uma informação que confirme aquilo em que já acreditamos? Quando surge uma denúncia contra alguém de quem gostamos, classificamos imediatamente como perseguição. Quando atinge alguém de quem não gostamos, muitas vezes tratamos como condenação. Em poucos minutos, vídeos, recortes e versões circulam pelos grupos e pelas redes sociais, e cada lado constrói sua própria verdade.
Talvez seja justamente isso que Assis menos precise neste momento.
Precisamos de respostas claras. Precisamos saber o que aconteceu, quem fez o quê e quais documentos comprovam cada versão. Se houve erro da administração, que seja apontado. Se houve crime, que seja investigado. Se alguém foi injustamente acusado, que isso também seja esclarecido. O que não podemos aceitar é viver permanentemente cercados por suspeitas sem conclusão, porque cada episódio mal esclarecido retira mais um pouco da confiança da população nas instituições.
Ao mesmo tempo, precisamos recuperar a capacidade de falar sobre o futuro. Onde Assis pretende estar daqui a cinco ou dez anos? Como vamos atrair empresas? Como melhorar nossos serviços públicos? Como modernizar a infraestrutura? Como fortalecer saúde, educação, esporte, cultura e inclusão? Como utilizar melhor o dinheiro público? Essas discussões talvez não produzam o mesmo barulho de uma denúncia ou de uma sessão tumultuada da Câmara, mas são elas que determinarão a cidade que nossos filhos encontrarão amanhã.
Não estou propondo que ninguém pare de fiscalizar. Muito menos que denúncias sejam esquecidas em nome de uma suposta tranquilidade política. Paz institucional não significa silêncio. Significa cada poder cumprindo sua função, respeitando os limites da lei e entendendo que existe algo maior do que qualquer mandato, grupo ou disputa eleitoral.
Talvez seja hora de Prefeitura, Câmara, situação, oposição e também nós, cidadãos, fazermos uma pergunta muito simples antes de cada nova batalha: o que Assis ganha com isso?
Porque uma denúncia pode derrubar um governo ou terminar arquivada. Uma investigação pode comprovar uma irregularidade ou demonstrar que ela não existiu. Uma eleição pode trocar prefeito, vereadores e grupos políticos inteiros.
A cidade, porém, continuará aqui.
E enquanto discutimos quem venceu a última disputa, milhares de pessoas continuarão acordando cedo, trabalhando, pagando impostos e esperando que o poder público faça aquilo para o qual existe: entregar uma cidade melhor.
Assis precisa de fiscalização. Precisa de transparência. Precisa de respostas.
Mas também precisa de paz para voltar a olhar para frente.

Rodrigo de Souza: Publicitário, mestre em Comunicação e cidadão assisense que acredita no diálogo, na fiscalização responsável e na construção de uma cidade melhor.

Ultimas Notícias!