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Assis volta a sonhar na tela grande

Artigo do publicitário, mestre em Comunicação, Cultura e Arte e integrante do Conselho Municipal de Cultura de Assis, Rodrigo de Souza.

*Por Rodrigo de Souza

Assis sempre foi feita de encontros. Uns ocorriam na praça, outros nos coretos, outros ainda no escurinho do cinema, onde a vida se misturava à ficção e os sonhos ganhavam cores maiores que a própria realidade. Quem não se deixou levar pelos duelos do velho oeste no Cine São José? Ou não saiu às pressas, no cair da noite, para encontrar amigos e paqueras na movimentada Floriano Peixoto, depois de uma sessão no Cine São Vicente? E quem não guarda na memória as famosas matinês de domingo, que reuniam famílias inteiras para viver juntos a magia da tela?
A história de Assis é também a história de suas salas. Do Cine Peduti, que antecedeu o atual Piracaia, às multidões que se emocionaram com Gigliola Cinquetti no “Dio Come Ti Amo”. O cinema aqui sempre foi mais que espetáculo: foi escola, foi espelho, foi janela para o mundo.
E como toda memória merece continuidade, o destino nos presenteia com um reencontro. Na tarde de 3 de setembro de 2025, as luzes se acenderam novamente no Cinema Municipal Piracaia. Não era apenas uma cerimônia oficial. Era o coração cultural da cidade retomando o compasso. A sala histórica dos anos 60, com seus 540 assentos originais, recebeu nova vida: projeção a laser em 4K, som 7.1 que arrepia, e uma tela de 17 metros, a maior do interior de São Paulo. Um gigante que acorda, pronto para devolver ao povo o que sempre foi do povo: o direito de se emocionar coletivamente.
E que simbólico foi ver os primeiros espectadores: as crianças da Escola Municipal João Mendes Júnior. Aquelas fileiras antes ocupadas por nossos pais e avós agora se enchem de olhos curiosos de quem carrega o futuro. Porque cultura é exatamente isso: um legado que se transmite.
O gesto da FEMA, que investiu na modernização, e da Prefeitura, que entrega à Secretaria de Cultura a missão de cuidar da programação, revela algo maior que tijolos ou equipamentos. Revela a escolha de acreditar que cine é cultura, cine é educação, cine é identidade.
Por ora, as sessões trarão filmes educativos, obras com direitos liberados, atividades para escolas. Mas a promessa já está no horizonte: integrar o circuito nacional de estreias, colocar Assis no mapa das grandes exibições, e devolver aos cidadãos a experiência de assistir a um lançamento em um lugar de tanta história.
Ao reabrir o Piracaia, Assis não apenas recupera uma sala de cinema. Recupera um espaço de memória, de convivência, de aprendizado e de esperança. Num tempo em que a pressa e a tecnologia nos afastam, o cinema nos convida de novo a sentar lado a lado, a rir e chorar juntos, a conversar sentado na praça depois do filme, a compartilhar emoções que nos humanizam.
Talvez seja disso que mais precisemos: de lugares que nos devolvam o sentido de comunidade. O Piracaia volta a ser esse lugar. E nós, espectadores da história, temos a chance de honrar a herança dos que vieram antes e de garantir que os que virão depois também encontrem, na tela grande, a poesia de viver em Assis.
Porque reabrir o cinema é mais do que reabrir portas. É reabrir caminhos para o futuro.

* Rodrigo de Souza é publicitário, mestre em Comunicação, Cultura e Arte e integrante do Conselho Municipal de Cultura de Assis. Atua como analista de comunicação e eventos, é associado do Rotary Club de Assis do Vale, membro do Conselho da Fundação Futuro e da diretoria da Casa da Menina São Francisco de Assis, com trajetória dedicada à cultura, educação e projetos comunitários.

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