O Diário do Vale - A Região no Mundo!
Pesquisar

Cândido Mota: 103 anos, do Gigante Verde ao Gigante Vermelho

Crônica do cabeleireiro, graduado em História e Bacharel em Direito, Romildo Pereira de Carvalho.

Nossa solidária cidade estará completando 103 anos de emancipação político-administrativa. Embora a emancipação tenha ocorrido oficialmente em 28 de dezembro de 1923, nós comemoramos o aniversário de Cândido Mota no dia 26 de outubro, data em que, no ano de 1968, foi instalada a nossa Comarca.
A história é uma ciência humana e, por isso, muitos relatos chegam até nós por meio da tradição oral. São histórias transmitidas de geração em geração, que ajudam a preservar a memória daqueles que ajudaram a construir a nossa cidade.
Segundo a história oficial, a exploração da região oeste e sudoeste do Estado de São Paulo começou na segunda metade do século XIX, durante o movimento conhecido como Marcha para o Oeste. As caravanas procuravam novas terras para o plantio e a pecuária, buscavam a descoberta de minerais e também se deparavam com a presença dos povos indígenas que já habitavam essas terras.
A primeira tentativa de colonização de nossa região foi infrutífera. O Governo de São Paulo fez a doação desta área à Companhia Colonizadora Paulista, mas, por razões que ainda não estão totalmente esclarecidas, a companhia não obteve êxito na exploração.
Diante disso, o Governo retomou as terras e organizou uma caravana, provavelmente no início do século XX, comandada pelo senhor Coronel Valêncio Carneiro de Castro.
A comitiva saiu de São Paulo, margeando a linha férrea da Sorocabana até chegar a Botucatu. Depois, seguiu abrindo caminho pela mata, com facões, foices e machados, até chegar às terras onde hoje está Cândido Mota.
Aqui, os integrantes da caravana avistaram um ribeirão chamado Macuco, onde construíram seus ranchos. Mais adiante, encontraram o grandioso Rio Paranapanema, que já naquela época impressionava pela sua dimensão.
Pouco tempo depois de sua chegada, o Coronel Valêncio retornou a São Paulo, levando consigo a informação de que aquelas terras eram diferenciadas, com uma terra vermelha e extremamente fértil. Lá, conseguiu o título de propriedade dessas terras.
Durante sua ausência, entretanto, ocorreram invasões por posseiros e também conflitos com os indígenas, que acabaram fugindo em direção ao Paraná.
Provavelmente em 1907, o Coronel Valêncio retornou ao nosso povoado e construiu sua primeira sede na Água do Paraíso. No ano seguinte, em 1908, construiu outra sede na Santa Gabriela, também conhecida como Aguinha ou Italianada, devido à presença de várias famílias italianas naquele local.
Com seu retorno, retomou também suas terras que haviam sido ocupadas pelos posseiros.
Em 1913, o Coronel Valêncio doou uma área plana de suas terras para a construção de uma Igreja Católica. A primeira igreja, ainda de madeira, foi construída provavelmente em 1919.
À medida que novas pessoas chegavam à região, também se estabeleciam diferentes manifestações religiosas. Em 1920, foi construída a Igreja Presbiteriana Independente no bairro rural do Barranco Vermelho; em 1923, a Igreja Metodista foi construída na cidade; em 1929, foi construída outra Igreja Presbiteriana Independente na área urbana. Mais tarde, em 1948, foram construídos o templo das Testemunhas de Jeová e a Igreja Congregação Cristã no Brasil.
Em 1914, chegou a estrada de ferro ao nosso povoado, que ainda estava em formação. Com ela veio o progresso: novos moradores, implementos agrícolas e comerciais e, principalmente, a expectativa de comercialização da produção agrícola, que poderia ser escoada pela ferrovia.
A agricultura, então, começava a deixar de ser apenas de subsistência para se transformar em uma atividade comercial.
O primeiro grande produto comercializado foi a madeira, graças à vasta área verde, repleta de enormes árvores. Naquele período, nossa região era verdadeiramente o “Gigante Verde”.

A ferrovia também ajudou a dar os primeiros nomes ao nosso povoado. O local passou a ser conhecido como Parada do Jacu ou Posto do Jacu, porque o trem parava ali para abastecer-se de água no Rio Jacu.
Também éramos conhecidos como “Chave”, porque havia naquele local uma chave utilizada para a manobra dos trens.
Até mesmo as primeiras propriedades vendidas na região tinham como referência a estação ferroviária:
“Vende-se uma propriedade a 3.500 metros ao sul da Estação.”
Em 1920, nosso povoado tornou-se a Vila de Cândido Mota, transformando-se em distrito de Assis no ano de 1921.
O Coronel Valêncio deu o nome de Cândido Motta à nossa Vila em homenagem ao senhor Cândido Motta, com quem mantinha amizade e que, segundo os relatos, possuía terras na região e ocupava o cargo de Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Talvez, por essa proximidade, pudesse ter um olhar ainda mais generoso para a agricultura de nossa cidade.
Com o crescimento da Vila de Cândido Mota, em 28 de dezembro de 1923, ocorreu a emancipação político-administrativa, surgindo assim o Município de Cândido Mota, o nosso Gigante Vermelho, a nossa terra roxa de paixão, cantada em versos e prosas.
Após a emancipação política, nossa cidade partiu em direção ao desenvolvimento.
Até aproximadamente 1950, a maior concentração populacional estava na zona rural. Destacavam-se os imigrantes italianos, japoneses, espanhóis, portugueses e austríacos. No comércio, tinham grande presença os imigrantes sírio-libaneses.
Esses dados foram levantados a partir do excelente trabalho realizado pelo saudoso amigo, historiador, professor e ex-vereador Walter Marroni, por ocasião do cinquentenário de nossa cidade.
A agricultura também começava a tomar conta de nossas terras. Destacavam-se as plantações de café, arroz, milho, feijão e algodão.
Mas existe também um novo relato sobre a formação do nosso povoado.
Como sempre faço questão de frisar, a história é uma ciência humana, e muitas vezes é difícil alcançar a precisão absoluta dos acontecimentos, especialmente quando lidamos com relatos antigos, tradição oral e documentos que podem apresentar diferentes versões.
Segundo pesquisas e relatos do assisense Leoni Ferreira da Silva, apaixonado pelas letras e pela nossa gente e autor de vários livros, as terras de nossa região da Sorocabana pertenciam, em 1847, durante o período do Império, ao senhor José Teodoro de Souza.
Ele possuía uma enorme extensão territorial, superior a 8 mil quilômetros quadrados, conforme registros existentes no Cartório de São José do Rio Novo dos Campos Novos do Paranapanema, considerada uma das mais antigas cidades de nossa região.
Em 1887, o Capitão Assis adquiriu uma parte das terras dos herdeiros de Teodoro, formando a Fazenda Taquaral, que margeava Echaporã, o Ribeirão Taquaral, a margem direita do Rio Pari até chegar ao Rio Paranapanema.
Por volta de 1890, chegou à região o senhor Herculano Alves dos Santos, que adquiriu uma área de terras junto ao Ribeirão Jacu, comprando-a do senhor Valentim Machado de Lima.
Em 1896, João Hipólito Alves de Barros comprou uma fazenda na Água da Cabiúna, que margeava o Ribeirão Jacu e a Água da Figueirinha. Seu cunhado, José Reis, também morava naquela região, onde hoje conhecemos como Cabiúna.
No ano de 1897, chegou à região, vindo de Conceição de Monte Alegre, o senhor Vicente Lourenço Ferreira, acompanhado de seus dois filhos, já rapazes, José Ferreira da Silva e Torquato Ferreira da Silva.
Com foice, machado, armas, paçoca e café, abriram picadas na mata e chegaram ao nosso povoado, na Água do Miranda, conhecida como Italianada.
Na cabeceira, morava José Miranda de Souza.
Depois, pai e filhos chegaram à Água do Paraíso e à Água do Macuco, além de uma água conhecida naquela época como “Crivo”, onde residia a família Andreotti.
Em 1889, chegaram à região também José Miranda de Souza e Honório Campanha, este último estabelecendo-se no Distrito de São Benedito.
Em 1900, João Pio Barbosa, vindo de Platina, fixou residência à esquerda do Ribeirão Jacu. Também chegou à região João Flausino da Costa.
Naqueles primeiros tempos, os moradores buscavam seus mantimentos em localidades como Cerqueira César, São Manuel, Botucatu, Campos Novos e Conceição de Monte Alegre.
Eram homens e mulheres corajosos, verdadeiros aventureiros que enfrentavam as dificuldades da mata para construir uma nova vida.

Entre os primeiros cidadãos que chegaram ao Posto do Jacu, como era conhecido nosso povoado antes de se tornar Cândido Mota, estavam: José Miranda de Souza, na Italianada; Torquato Ferreira, na Água do Paraíso; José Miguel da Silva, na Taquara Preta, onde hoje está o Colégio Agrícola; João Faria e Abel Ferreira de Souza, na Aguinha; Celestino Modesto, na Água do Macuco, onde posteriormente morou a família Belanda; os irmãos Olegário, também na Água do Macuco; Manoel Estevão Reis e José Martins dos Reis, onde funcionou a sede da Fazenda da Dona Mariana Borges; Joaquim Pereira Alvim, na Água das Pedras, afluente do Macuco; Honório Campanha, ou talvez Campana, nas imediações do Distrito de São Benedito; e José Laurindo Pereira, na Água da Queixada, próxima à Pinguela. Entre esses nomes, destaca-se Joaquim Pereira Alvim, responsável pela derrubada da mata próxima à linha férrea e também pela construção de algumas casinhas de madeira nas proximidades.
Na exploração da madeira, destacou-se a senhora Maria Magdalena Pinto, empresária da Machado Bastos e Cia., que possuía uma enorme propriedade de terras na região, adquirida da filha do Capitão Assis, a senhora Jesuína, que, por sua vez, havia comprado dos herdeiros de Teodoro.
Outros também possuíam serrarias aqui, no nosso Gigante Verde, e a madeira era uma das principais fontes de renda.
Entre esses pioneiros, destacaram-se os nobres cidadãos Augusto Vieira Magalhães, Abel Ferreira de Souza, Francisco Albernaz e Bernardino Simões Garrido.
O senhor Coronel Valêncio Carneiro de Castro, seu irmão Josino e sua mãe, Maria Amélia, compraram uma enorme área de terras aqui, a Fazenda Jacutinga-Macuco, que anteriormente pertencia ao Tenente-Coronel Pedro Joaquim.
O senhor Valêncio destacou-se na formação de nossa cidade ao lado da senhora Maria Magdalena Pinto.
O primeiro loteamento urbano foi realizado pela senhora Maria Magdalena, por intermédio de seu procurador, Abel Ferreira de Souza, sob a responsabilidade do engenheiro Marçal Castelão.
O primeiro comprador de um terreno foi o senhor Carmo Chaddi, em 1919.
Depois, vieram outros compradores: Firmino Rodrigues de Souza, Francisco e Antônio Paulino Barreiros, João Chequer, Vicente Sampaio, José Dias, Antônio Vieira Vinagre, Antônio da Silva Vieira, que seria o primeiro prefeito, Salvador Farah, Adolfo Soares, Pedro de Souza, entre tantos outros.
Em 1921, quando a Vila de Cândido Mota ainda era distrito de Assis, foi construído o nosso Cemitério, em uma área doada pelo Coronel Valêncio e pela senhora Maria Magdalena.
Maria Magdalena também doou uma área à Diocese de Botucatu para a construção da Igreja Matriz, que se tornou o marco zero da cidade, também em 1921.

A primeira pessoa enterrada no Cemitério teria sido o senhor Antônio Vilas Boas, provavelmente parente do sertanista e indigenista Orlando Villas-Bôas, que teria morado aqui com seu pai, Agnello Villas-Bôas, e seus irmãos.
Conta-se também que, quando criança, Orlando Villas-Bôas recebeu a visita de Jânio Quadros, também criança, e os dois teriam brincado juntos em uma represa, provavelmente em um sítio da família Villas-Bôas.
A construção do Cemitério ficou sob a responsabilidade do senhor Joaquim Pereira Alvim e ocupava uma área de aproximadamente 600 metros quadrados.
O senhor Augusto Vieira Magalhães, procurador da senhora Maria Magdalena, construiu o primeiro sobradinho em frente à Estação Ferroviária.
Por volta dos anos de 1917 a 1922, chegaram ao povoado do Posto do Jacu, Parada do Jacu ou Chave, as famílias Pípolo, Zibordi, Marroni, Mussolini, Belanda, Burlim, Gava, Zardetto, Dias da Mota, entre tantas outras.
Eis um pouquinho do início do nosso povoado, da nossa querida cidade de Cândido Mota.
Antes, éramos o Gigante Verde.
Depois, em virtude da coragem dos primeiros aventureiros que chegaram de diferentes lugares — São Paulo, Sorocaba, Macatuba, Botucatu, Barra Bonita, São Manuel, Igaraçu do Tietê, Portugal, Itália e tantos outros lugares — fomos sendo transformados.
Eles trouxeram consigo a saudade da terra natal, mas também trouxeram a esperança.
Com o trabalho, o suor, as lágrimas, a coragem e os calos nas mãos, transformaram a mata verde em lavouras, caminhos, casas, comércio, igrejas, famílias e sonhos.
E assim, pouco a pouco, o Gigante Verde foi se transformando no nosso Gigante Vermelho.
Vermelho da nossa terra.
Vermelho do café.
Vermelho do sangue daqueles que trabalharam e lutaram por esta terra.
Vermelho da paixão de quem ama Cândido Mota.
Vermelho do orgulho de ser pé vermelho!
Hoje, quando olhamos para nossa cidade, não vemos apenas ruas, prédios, praças e propriedades.
Vemos histórias.
Vemos famílias.
Vemos gerações.
Vemos aqueles que chegaram antes de nós e abriram os primeiros caminhos.
Vemos aqueles que aqui nasceram, trabalharam, constituíram suas famílias e ajudaram a construir esta cidade.
E vemos também a responsabilidade que temos com o futuro.
Porque resgatando o passado, edificamos o presente e glorificamos o futuro.
Nosso abraço fraterno a todos aqueles que ajudaram, deram sua parcela de contribuição e continuam ajudando e acreditando em nossa cidade.
Afinal, o melhor lugar do mundo é onde pisamos no chão, conseguimos o nosso sustento, respiramos e contemplamos o espetáculo da vida.
Que Deus abençoe grandemente todos aqueles que se orgulham desta terra, desta gente e deste nosso querido Gigante Vermelho.
Viva Cândido Mota!
Viva a nossa gente!
Viva a nossa história!
Por,
Romildo Pereira de Carvalho
Cabeleireiro, graduado em História e Bacharel em Direito.

Ultimas Notícias!