O município de Cândido Mota/SP tornou-se um dos primeiros do país a criar políticas públicas específicas para o enfrentamento ao uso abusivo de telas e à dependência em jogos virtuais. A Prefeitura oficializou a criação do Programa Municipal de Prevenção e Enfrentamento à Dependência em Jogos e Apostas. Como parte das primeiras ações práticas da nova legislação, a administração municipal realiza nos dias 24 e 25 de setembro o 1º Congresso Vidas em Jogo, evento gratuito voltado à conscientização de famílias, jovens e profissionais sobre os impactos do vício em apostas digitais.
A iniciativa do programa nasceu a partir do relato pessoal do vice-prefeito Júlio Urbano, que enfrentou diretamente o vício nas chamadas ‘bets’ e utilizou sua experiência para alertar a população. “Eu tive problema com as bets. Como acontece com muita gente, tudo começou como uma brincadeira. Quando eu percebi, eu estava jogando com uma frequência e perdendo o controle da situação”, relatou o vice-prefeito. Ele explicou que conseguiu superar o problema com suporte especializado. “Graças a Deus, isso foi percebido a tempo. Minha família me ajudou, nós conversamos, eu procurei ajuda terapêutica e posso dizer, com muita humildade, que estou longe dos jogos”, afirmou Urbano.
O vice-prefeito apresentou dados econômicos para ilustrar a dimensão do problema no cenário nacional, confrontando os investimentos publicitários com o prejuízo das famílias brasileiras. Ele apontou que, enquanto as empresas de apostas representam hoje mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios aos clubes da Série A do futebol nacional, um levantamento do Comsefaz/Cicef, baseado em dados do Banco Central, estimou em R$ 62,5 bilhões as perdas líquidas das famílias brasileiras com apostas em 2025. Segundo Urbano, as perdas financeiras dos cidadãos são mais de 60 vezes superiores ao montante investido no esporte. O futebol precisa ser forte, mas as famílias brasileiras também precisam, o que levanta o questionamento se o esporte não ficou dependente demais dessas plataformas.
Diretrizes e Funcionamento do Programa Municipal
O programa foi desenhado para atuar de forma transversal, unindo esforços das secretarias municipais de Saúde, Educação, Assistência Social, além da Secretaria de Desenvolvimento de Indústria e Comércio (SEDIC), do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e da Câmara Municipal. A lei foca na promoção de campanhas educativas, distribuição de materiais informativos, realização de palestras e na capacitação de servidores públicos para identificar precocemente os sinais do jogo patológico e evitar o superendividamento.
Na área da Educação, as atividades terão caráter exclusivamente pedagógico e preventivo, respeitando a faixa etária dos estudantes. As escolas municipais abordarão temas como educação financeira, probabilidades e falsas expectativas de ganho, os riscos associados às promessas de enriquecimento rápido, a influência da publicidade e o uso responsável das tecnologias de informação.
Na área da Saúde, o foco será o acolhimento inicial e o encaminhamento dos pacientes para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e demais serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), além do treinamento de profissionais para reconhecer os sintomas da compulsão. A Assistência Social, por sua vez, atuará diretamente no suporte e na orientação às famílias que sofrem as consequências socioeconômicas e o desabastecimento gerado pelas perdas financeiras nos jogos.
Alertas Oficiais e Inscrições para o Congresso
O Poder Público utilizará seus canais oficiais e equipamentos públicos para divulgar mecanismos de proteção e os sistemas de autoexclusão geridos pelo Governo Federal. As campanhas institucionais reforçarão mensagens educativas claras à população, alertando que apostas não constituem investimento financeiro e não devem ser vistas como alternativa de trabalho ou renda regular. Também serão destacados como sinais de risco a tentativa reiterada de recuperar valores perdidos, o hábito de esconder prejuízos financeiros da família, a venda de bens, a solicitação de empréstimos ou o comprometimento de verbas destinadas a despesas essenciais para a manutenção da casa.
Para debater esses desafios com a comunidade, o prefeito Eraldo Pereira e o vice-prefeito Júlio Urbano convidam a todos para participarem do congresso desta semana. O evento contará com debates mediados por especialistas, com foco na orientação prática para pais e educadores. As inscrições são gratuitas, possuem vagas limitadas e devem ser realizadas pelo formulário eletrônico oficial disponibilizado no endereço https://forms.gle/2DC1KRQVMtjEybDm6. O município proíbe que eventuais parcerias com instituições de ensino, universidades ou organizações da sociedade civil sejam utilizadas para fins alheios aos objetivos estritamente preventivos da lei.



(Por Elton Valentim/O Diário do Vale)



