Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do CADDE Centre identificaram que o vírus Sabiá – causador da febre hemorrágica brasileira – sofreu mutações genéticas que dificultavam sua detecção por exames tradicionais. O estudo, publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases e divulgado pela Fapesp, indica que o patógeno circula silenciosamente no país há cerca de 142 anos. A análise foi feita a partir de dois casos fatais registrados no interior paulista em 2019.
Uma das vítimas foi um trabalhador rural de 63 anos, morador de Assis, e a outra foi um homem de 52 anos, residente de Sorocaba, que costumava fazer trilhas em áreas de mata. O vírus Sabiá é um mammarenavírus extremamente raro e letal. Desde 1990, apenas alguns casos humanos foram oficialmente identificados no estado, a maioria com evolução fatal.
Mutações Dificultaram Diagnóstico
Os testes laboratoriais utilizados até então eram baseados em uma cepa identificada em 1990, na cidade de Cotia. Como mais de 30 anos se passaram, o vírus sofreu alterações genéticas importantes.
- Falha nos testes: As mutações ocorreram justamente nas regiões utilizadas pelos exames antigos.
- Invisibilidade: As alterações impediam que os métodos tradicionais detectassem o vírus atual.
- Ataque celular: Cientistas observaram mudanças nas proteínas que o vírus usa para se ligar às células humanas.
“Identificamos mutações em regiões-alvo dos primers que impediam a detecção pelos testes diagnósticos existentes. Modificamos estas regiões e agora é possível identificar as cepas atualmente circulantes” – Ingra Morales Claro, pesquisadora do estudo.

Técnica Avançada Permitiu Descoberta
Os casos de 2019 só foram confirmados graças ao uso de análise metagenômica. Esta técnica de alta tecnologia é capaz de identificar microrganismos desconhecidos a partir do material genético presente nas amostras dos pacientes. Com a descoberta das mutações, os cientistas conseguiram atualizar os componentes dos testes para que a rede de saúde possa rastrear o vírus corrigido.
Sintomas Graves e Mistério na Transmissão
Os dois pacientes analisados morreram após apresentarem um quadro clínico severo e de evolução rápida. Os principais sintomas registrados foram:
- Febre alta
- Sangramentos
- Insuficiência renal
- Comprometimento neurológico
- Falência de múltiplos órgãos
Os médicos ainda não sabem se existem casos leves ou assintomáticos da doença. Cientistas acreditam que o reservatório natural do vírus seja composto por roedores silvestres, já que os registros ocorrem em áreas rurais ou perto de matas. Contudo, a espécie exata e os modos de transmissão — incluindo o contágio entre humanos — continuam desconhecidos.
Alerta Para Vigilância Sanitária
O achado sugere que o vírus Sabiá causou outras mortes não identificadas no passado devido à falta de diagnósticos precisos.
“É importante compreender o vírus, desenvolver testes e estudar as mudanças para que possamos antecipar futuros casos e até surtos” – Ester Sabino, pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP.
(Com informações do Uol)
(Foto: Divulgação / USP)



