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Quanto vale uma vida? Uma experiência na UPA me fez olhar para a saúde de Assis

Artigo do mestre em Comunicação, Cultura e Arte e cidadão assisense, Rodrigo de Souza.

Por Rodrigo de Souza

No início desta semana, uma situação inesperada me colocou diante de uma realidade conhecida diariamente por milhares de pessoas: a espera por atendimento na saúde pública.
Uma conhecida sofreu uma queda e precisou ser levada à UPA de Assis. Fui acompanhá-la.
Cheguei como acompanhante. Saí de lá com muitas perguntas.
Durante o período em que permaneci na unidade, acompanhei a movimentação de pacientes e familiares. Vi idosos aguardando atendimento, mães com crianças no colo e pessoas demonstrando preocupação diante da espera. Em determinado momento, presenciei um homem, visivelmente angustiado, cobrando informações sobre o atendimento de um familiar.
A tensão de quem espera por atendimento é compreensível.
Mas havia outro lado daquela realidade que também precisava ser observado.
Os profissionais estavam trabalhando.
Médicos, enfermeiros, técnicos, recepcionistas e demais colaboradores se movimentavam diante de uma demanda aparentemente intensa. Além do atendimento, muitos precisavam explicar procedimentos, orientar pacientes e lidar com a ansiedade de familiares.
Foi justamente essa percepção que me impediu de escrever uma crítica simplista à UPA. Seria fácil sair dali e resumir tudo a uma sala de espera cheia. Preferi fazer outra coisa: ouvir.
Nos dias seguintes, conversei informalmente com pessoas que conhecem a rotina da saúde e procurei compreender melhor como funciona o caminho percorrido pelo paciente dentro da rede pública.
Essas conversas não representam uma auditoria, tampouco um diagnóstico técnico. Mas levantaram questões que, na minha avaliação, merecem ser discutidas publicamente e respondidas com dados.
A primeira delas é sobre o papel da própria UPA dentro da rede municipal.
Uma unidade de pronto atendimento não funciona isoladamente. Ela integra uma estrutura que envolve atenção básica, unidades de saúde, serviços especializados, saúde mental, hospitais e mecanismos de regulação e transferência.
Quando um desses fluxos enfrenta dificuldades, a urgência pode sentir os reflexos.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas por que existe espera na UPA.
Precisamos perguntar também: quem está chegando à UPA e por quê?
Quantos atendimentos poderiam encontrar resposta na atenção básica?
Como estão funcionando os encaminhamentos entre os serviços?
Qual é o tempo médio de permanência dos pacientes em observação?
Quantos casos dependem de transferência?
Qual é o impacto das demandas relacionadas à saúde mental na estrutura de urgência?
A quantidade de profissionais acompanha o volume real de atendimentos?
São perguntas técnicas.
E justamente por serem técnicas, precisam de respostas baseadas em números.
Outro ponto que chamou minha atenção surgiu a partir de relatos que ouvi sobre as condições enfrentadas em determinados momentos da rotina de atendimento, inclusive em relação à disponibilidade de itens básicos para acomodação de pacientes.
Não tenho documentos que me permitam afirmar que exista falta permanente de materiais na unidade.
Por isso, não farei essa afirmação.
Mas considero legítimo perguntar: há registros de falta ou insuficiência de itens básicos, como lençóis e travesseiros, em períodos de maior demanda?
Se há, com que frequência isso acontece?
Se não há, que os dados e esclarecimentos sejam apresentados à população.
É assim que acredito que uma discussão responsável deve acontecer.
Pergunta, resposta, informação e transparência.
Também considero necessário falar sobre os profissionais da saúde.
Durante minha permanência na unidade, percebi o peso emocional existente naquele ambiente. De um lado, pacientes e familiares fragilizados. Do outro, trabalhadores submetidos diariamente à pressão de uma área em que cada minuto pode representar medo, dor e ansiedade.
Não podemos transformar pacientes e profissionais em adversários.
O cidadão que espera por atendimento não é inimigo do trabalhador da saúde.
E o profissional que está na linha de frente não pode ser responsabilizado, de maneira automática, por todos os problemas estruturais ou de fluxo existentes na rede.
Se existem gargalos, eles precisam ser identificados.
Se existem falhas, precisam ser corrigidas.
Se faltam recursos, é preciso demonstrar onde e por quê.
Se o problema está nos fluxos, eles precisam ser revistos.
E, se a estrutura atual não acompanha a demanda, a cidade precisa discutir planejamento.
Depois daquela experiência, uma coisa ficou clara para mim: Assis precisa discutir sua rede de saúde de forma mais ampla.
Não apenas quando alguém espera horas por atendimento.
Não apenas quando uma família se revolta.
Não apenas quando um profissional chega ao limite.
Precisamos conhecer os números.
Qual é a média diária de atendimentos da UPA?
Quais são os horários e dias de maior demanda?
Qual percentual dos casos é classificado como urgência e emergência?
Quantos pacientes poderiam, tecnicamente, ser atendidos em outros pontos da rede?
Como está estruturado o atendimento em saúde mental?
Qual é o tempo médio de transferência de pacientes?
A estrutura atual é suficiente para a realidade de Assis?
Não apresento essas perguntas como acusações.
Apresento como cidadão.
Fiscalizar não é atacar.
Questionar não é condenar.
E reconhecer dificuldades não significa desvalorizar os profissionais que trabalham diariamente para manter o atendimento funcionando.
Pelo contrário.
Talvez uma das formas mais responsáveis de defender a saúde pública seja ouvir quem espera e também quem atende.
A população merece respostas.
Os profissionais merecem condições adequadas de trabalho.
E a cidade merece uma discussão que vá além das versões políticas.
Depois de acompanhar aquela situação, decidi que quero entender melhor a saúde de Assis.
Quero ouvir profissionais.
Quero ouvir usuários.
Quero conhecer os dados.
Quero compreender os fluxos.
E acredito que a administração municipal e os responsáveis pela gestão da saúde podem contribuir com esse debate apresentando informações e esclarecimentos à população.
Porque saúde pública não pode ser discutida apenas no campo das impressões.
Precisa ser discutida com transparência, planejamento e dados.
A pergunta que ficou comigo naquela noite continua sendo a mesma:
Quanto vale uma vida?
Para mim, vale o esforço de perguntar.
Vale o compromisso de ouvir.
Vale a responsabilidade de não acusar sem provas.
Mas também vale a coragem de não permanecer em silêncio quando existem perguntas que precisam ser respondidas.
A saúde tem números.
Tem orçamento.
Tem contratos.
Tem planejamento.
Mas, antes de tudo, tem pessoas.
Tem uma família esperando do lado de fora.
Tem um profissional trabalhando do lado de dentro.
E tem vidas dependendo da capacidade de uma cidade de reconhecer seus desafios e buscar soluções.
Eu comecei a olhar.
Agora, quero entender.

Rodrigo de Souza é mestre em Comunicação, Cultura e Arte e cidadão assisense. Acredita que ouvir a população, buscar informações e cobrar respostas com responsabilidade também é uma forma de cuidar da cidade.

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