Nos últimos meses, tenho procurado trazer para o debate algumas questões relacionadas ao autismo, especialmente aquelas que fazem parte do cotidiano das crianças e de suas famílias. Recentemente, ao falar sobre ambientes de regulação sensorial, recebi de uma mãe uma pergunta simples, mas extremamente necessária: “E quando nossos filhos crescerem?”
Confesso que a pergunta me fez ampliar o olhar.
Temos que continuar discutindo inclusão escolar, atendimento especializado, espaços sensoriais e desenvolvimento das nossas crianças. Mas precisamos, ao mesmo tempo, começar a olhar para o adolescente que daqui a pouco deixará a escola e para o adulto que precisará encontrar seu espaço na sociedade.
Assis já possui serviços importantes. Na Educação, por exemplo, o Centro de Atendimento Educacional Especializado Fênix desenvolve ações voltadas ao desenvolvimento da autonomia e independência dos alunos com TEA. O próprio regulamento do serviço, porém, estabelece atendimento da Educação Infantil aos anos iniciais do Ensino Fundamental, até o 5º ano.
Isso não significa dizer que depois dessa etapa a pessoa fique sem qualquer atendimento. Significa que precisamos olhar com atenção para a transição entre as diferentes fases da vida.
Na minha visão, um dos caminhos que Assis poderia discutir é justamente a criação de um programa de transição para a vida adulta, começando ainda na adolescência.
Não penso necessariamente em criar mais um prédio ou uma nova grande estrutura. Antes disso, acredito que podemos conectar melhor aquilo que o município e as instituições já oferecem.
Educação, Saúde, Assistência Social, serviços de empregabilidade, entidades, universidades, empresas e famílias poderiam trabalhar conjuntamente para preparar adolescentes com TEA para aquilo que vem depois da escola.
E essa preparação não pode ser igual para todos.
Alguns jovens poderão seguir para uma faculdade ou para o mercado de trabalho com pequenas adaptações. Outros poderão precisar de qualificação e emprego apoiado. E haverá aqueles que, por suas necessidades de suporte, precisarão de acompanhamento permanente e de políticas que garantam qualidade de vida e participação social.
Por isso, defendo que essa discussão tenha pelo menos três frentes.
A primeira é a transição para a vida adulta, trabalhando autonomia desde a adolescência: atividades cotidianas, mobilidade, comunicação, educação financeira, convivência social e preparação profissional.
A segunda é a inclusão no mercado de trabalho, aproximando pessoas com TEA das empresas e criando mecanismos de acompanhamento para que inclusão não signifique apenas contratação, mas também adaptação, permanência e desenvolvimento profissional.
E a terceira talvez seja a mais difícil, porém uma das mais necessárias: planejar o futuro das pessoas que continuarão necessitando de apoio quando seus pais ou responsáveis envelhecerem.
É uma preocupação que muitas famílias carregam silenciosamente: quem cuidará do meu filho quando eu não puder mais cuidar?
Não tenho a pretensão de dizer que possuo sozinho todas essas respostas. Essas são sugestões de um munícipe, de alguém que acompanha essa realidade e entende que políticas públicas precisam ser construídas ouvindo principalmente as pessoas com TEA, suas famílias e os profissionais que vivem essa realidade todos os dias.
Talvez um primeiro passo seja justamente conhecer melhor essa população.
Quantos adolescentes com TEA temos hoje em Assis? Quantos adultos? Quantos estão trabalhando? Quantos precisam de suporte permanente? Quais são as maiores preocupações das famílias?
Ter essas informações ajudaria o município a planejar os próximos anos e a integrar melhor os serviços existentes.
A pergunta daquela mãe me ensinou algo importante: não podemos pensar políticas públicas para o autismo olhando apenas para o presente.
As crianças que hoje estamos ajudando a incluir na escola crescerão. Serão adolescentes, adultos e idosos.
E uma cidade verdadeiramente inclusiva precisa estar preparada para caminhar com elas durante todas essas fases da vida.
Rodrigo de Souza: Publicitário, Mestre em Comunicação e pai atípico



