Por Rodrigo de Souza
No tempo de colegial, entre provas de matemática e redações apressadas, havia um espaço reservado para o que realmente nos fazia pensar: a aula de Português. Foi no Clybas Pinto Ferraz que conheci Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, obra que até hoje carrego comigo como uma marca da juventude.
A professora, se não me falha a memória, Maria Helena, não nos deu a leitura como um simples dever. Ela nos lançou um desafio: ler, fichar e, depois, encarar uma prova oral. Lembro da ansiedade, do nervosismo, mas também da descoberta. Machado não escrevia como os outros. Ele abria o livro com um narrador defunto que começava dizendo: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.” Como não se impressionar com isso, aos 16, 17 anos?
Cada aula era um convite a ver a literatura como espelho da vida. Ríamos da ironia de Brás Cubas, mas, no fundo, aprendíamos sobre a vaidade, o poder e as ilusões humanas. Até hoje, ecoa em mim o famoso epitáfio: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Frase dura, mas inesquecível, e só ficou em mim porque houve uma professora que acreditava que valia a pena nos fazer atravessar aquelas páginas.
Hoje, entendo: as “leituras obrigatórias” não eram obrigação, eram portas abertas. E aquela professora, cujo nome pode até se perder na minha memória, deixou em mim algo maior: a certeza de que os livros têm o poder de nos acompanhar pela vida inteira.
* Rodrigo de Souza é publicitário, mestre em Comunicação, Cultura e Arte e integrante do Conselho Municipal de Cultura de Assis. Atua como analista de comunicação e eventos, é associado do Rotary Club de Assis do Vale, membro do Conselho da Fundação Futuro e da diretoria da Casa da Menina São Francisco de Assis, com trajetória dedicada à cultura, educação e projetos comunitários.



