* Rodrigo de Souza
O primeiro ano de qualquer gestão pública costuma ser marcado por desafios que vão além da vontade política. Há um fator estrutural pouco debatido, mas determinante: o orçamento não nasce com quem assume o cargo. Ele é fruto de planejamentos anteriores, construídos em outro tempo, sob outras circunstâncias econômicas e administrativas. Isso não é falha de uma gestão ou de outra, é a própria lógica do funcionamento do poder público.
Esse dado, por si só, impõe limites e exige capacidade de adaptação. Governar é compreender a realidade que se apresenta e atuar dentro dela, considerando o cenário nacional, as condições fiscais do município e, principalmente, as demandas da população. Nenhuma administração começa do zero, assim como nenhuma encerra um ciclo sem deixar marcas no cotidiano da cidade.
O início de um mandato costuma vir acompanhado de expectativa. Há confiança, crédito político e a sensação de que o diálogo tende a fluir com mais naturalidade. Com o passar do tempo, esse ambiente vai sendo ajustado, testado e redefinido, como acontece em qualquer processo coletivo que envolve interesses, limites e responsabilidades públicas.
Na prática do dia-a-dia, a cidade passa a observar com mais atenção. O que foi prometido começa a ser comparado com o que é entregue. Acertos são percebidos e reconhecidos, assim como dificuldades e ruídos também se tornam visíveis. A cobrança que surge desse processo não é confronto, mas parte do funcionamento normal da vida pública.
O primeiro ano, especialmente, é aquele em que o planejamento precisa ganhar forma concreta. Decisões deixam o papel e passam a impactar serviços, rotinas e espaços que fazem parte da vida das pessoas. Algumas escolhas funcionam melhor, outras exigem ajustes.
Em áreas sensíveis, como saúde e educação, qualquer movimento é sentido com mais intensidade, exigindo comunicação clara, escuta e capacidade de correção de rota. Ao longo de 2025, esses elementos, embora presentes em intenção, nem sempre se materializaram de forma plenamente satisfatória na experiência cotidiana.
Acertos existem e devem ser reconhecidos. Da mesma forma, dificuldades fazem parte do processo e pedem maturidade administrativa. A avaliação de uma gestão não se constrói em atos isolados, mas na coerência do conjunto, na continuidade das ações e na capacidade de condução ao longo do tempo. Na escuta de conversas, encontros e diálogos com diferentes pessoas, a percepção que se consolidou ao final de 2025 foi a de um desempenho de nível moderado.
O segundo ano costuma ser um ponto de virada. É quando a gestão passa a atuar com orçamento concebido sob sua própria responsabilidade e quando o discurso começa a ser confrontado com resultados mais consistentes. Este ano, será um período atravessado por fatores externos, calendário eleitoral, eventos mundiais, ciclos econômicos, que irá testar a solidez das decisões tomadas.
É nesse momento que planos deixam o campo das intenções e passam a ser medidos pela sua efetividade. Entre continuidade, correções e amadurecimento, o tempo se encarrega de mostrar se o caminho escolhido produz resultados duradouros.
O ano está apenas começando.
E, como em qualquer partida longa, é no andamento do jogo, e não apenas na escalação inicial , que se entende a força de um time.
* Rodrigo de Souza é publicitário, mestre em Comunicação, Cultura e Arte, com atuação em instituições sociais, culturais e educacionais de Assis.



