Por Rodrigo de Souza
Eu defendo a democracia. Defendo o direito de cada pessoa ter sua opinião política. Defendo, inclusive, o direito de uma escola de samba escolher seu enredo, homenagear figuras públicas e provocar debates. O Brasil é plural, e a cultura, quando é livre, ajuda o país a se enxergar.
Mas existe uma linha que não pode ser cruzada: a linha em que a liberdade de expressão vira licença para constranger a fé do outro.
Nos últimos dias, milhões de brasileiros assistiram ao desfile da Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, e muitos sentiram algo que não tem nada a ver com disputa eleitoral. Sentiram humilhação. Porque uma ala intitulada “Neoconservadores em conserva” transformou símbolos associados à tradição e à fé cristã, como a Bíblia e a imagem de família, em caricatura pública, como se aquilo que é sagrado e formador para tanta gente fosse apenas motivo de deboche.
E aqui eu falo com franqueza, sem ódio e sem espetáculo: eu sou evangélico. Sou casado com uma católica. Dentro da minha casa, a gente aprendeu, e ensina aos nossos filhos, que fé não é motivo de riso, e que tradição não é sinônimo de atraso. A gente pode discordar de ideias, de partidos, de escolhas políticas. Mas transformar crença em fantasia depreciativa não é ‘crítica social’. É desrespeito. E desrespeito não constrói nada.
Alguns vão dizer: “é só arte”, “é só carnaval”, “é só sátira”. Eu concordo que a arte tem o direito de provocar. O problema é quando a provocação escolhe um alvo que já carrega, há anos, a sensação de ser tratado com dois pesos e duas medidas: quando é com a fé cristã, parece que tudo pode; quando é com outros grupos, a reação institucional costuma ser mais rápida, mais dura, mais unânime. É por isso que tanta gente não viu ali apenas uma crítica política, mas uma tentativa de reduzir valores, fé, família, compromisso, a um rótulo ridículo.
O próprio debate ganhou dimensão pública porque não foi “só internet”. Houve reação de autoridades e encaminhamentos jurídicos. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, afirmou que pretende acionar a Justiça, chamando atenção para o fato de que existem milhões de evangélicos que trabalham, criam seus filhos e pagam seus impostos, e que ‘colocar essas pessoas dentro de uma lata’ é desrespeito. Também houve notícia de acionamento da PGR por parlamentares, que alegam preconceito religioso. A escola, por sua vez, publicou nota defendendo o conteúdo como sátira e expressão artística.
Eu não escrevo aqui para proibir carnaval, censurar arte ou perseguir quem pensa diferente. Eu escrevo para lembrar um princípio simples: uma sociedade madura sabe diferenciar crítica de escárnio. Criticar uma postura política é fruto da democracia. Ridicularizar a fé, e usar símbolos sagrados como elemento de humilhação, não é coragem artística; é atalho para o conflito.
Quando você agride aquilo que dá sentido à vida de milhões de pessoas, você não está fazendo o Brasil avançar. Você está empurrando brasileiros uns contra os outros. E isso é perigoso. Porque, no fim, hoje é a fé de um grupo que vira alvo; amanhã pode ser a sua convicção, a sua cultura, a sua família, a sua identidade.
Se queremos um país mais justo, precisamos de mais respeito, não de mais zombaria. Precisamos voltar ao básico: reconhecer a dignidade do outro, mesmo quando discordamos. Porque democracia não é humilhar quem pensa diferente. Democracia é conviver com diferenças sem desumanizar ninguém.
Eu sigo acreditando que o Brasil pode ser plural sem ser cruel. E sigo acreditando que fé e família, para quem as carrega como fundamento, merecem, no mínimo, aquilo que todo cidadão merece: respeito.
Rodrigo de Souza: Comunicador, mestre em Comunicação e defensor do respeito à fé, à família e à dignidade humana.



