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Valorização não é postagem. É contracheque.

OPINIÃO

* Rodrigo de Souza

Existe um tipo de reconhecimento que cabe em uma arte bonita de rede social. Fundo bem escolhido, frase de efeito, sorriso ensaiado e a promessa de que “a educação é prioridade”. Dura o tempo de um story. Depois some. O trabalho, não.

Nos últimos dias, o debate sobre o piso salarial dos professores escancarou essa contradição de forma quase didática. Pela regra atual, o reajuste previsto para 2026 seria de apenas R$ 18. Dezoito reais. Um valor que não cobre sequer a inflação do ano passado, muito menos traduz qualquer ideia séria de valorização.

Diante da repercussão negativa, o governo anunciou que irá rever o critério por meio de medida provisória. O atual presidente deve alterar a regra para garantir ganho real aos docentes. O gesto é necessário. Mas o episódio deixa uma pergunta incômoda no ar: se ninguém tivesse reagido, o reajuste simbólico teria passado?

É nesse ponto que o discurso encontra a realidade.

Valorizar não é dizer que professor é importante. Isso todo mundo diz. Valorizar é decidir que o salário não pode perder para a inflação. É entender que carreira não se sustenta com aumentos simbólicos. É reconhecer que educação não pode ser prioridade só em datas comemorativas.

Na educação infantil, essa lógica é ainda mais sensível. Profissionais como os PDIs passaram anos sendo tratados como essenciais no cotidiano e secundários na política pública. Carregaram responsabilidades enormes, formação exigida, vínculos profundos com as crianças, e salários que não acompanhavam essa importância. Foram reconhecidos no afeto, mas ignorados no orçamento.

Por isso, a recente inclusão dos professores da educação infantil na carreira docente é uma correção necessária. Mas ela perde força se não vier acompanhada de valorização real. Direito reconhecido sem remuneração digna vira apenas retórica bem escrita.

Quem vive a educação sabe: valorização não se mede pelo aplauso, mas pela permanência. Pelo profissional que consegue planejar o futuro, pagar suas contas, investir em formação e permanecer na rede pública sem adoecer. Isso não se constrói com R$ 18.

Sou casado com uma educadora e tive minha base profissional construída dentro da educação. Sei que o cansaço não aparece na foto oficial. Sei que o reconhecimento simbólico não paga boletos nem sustenta vocação. E sei que toda vez que o reajuste fica abaixo da inflação, a mensagem é clara: o discurso anda mais rápido que a decisão.

Valorizar custa. Exige escolha. Exige prioridade orçamentária. Exige coragem política para dizer que educação não é gasto ajustável quando aperta, mas investimento contínuo.

Postagem emociona.

Homenagem conforta.

Mas é o contracheque que sustenta.

E quem educa todos os dias, merece mais do que símbolos. Merece respeito traduzido em política pública concreta.

*Rodrigo de Souza, assisense, casado com uma educadora e alguém que conhece, respeita e defende o valor e os direitos de quem educa.

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